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Saúde IV - Barulho na Enfemaria


Entramos para o atendimento da "Emergência" depois de duas horas de espera lá fora.
Meu pai na cadeira de rodas, sem entender nada! Sem reclamar.

Observo o guarda que toma conta dos acompanhantes que querem ver seu familiar lá dentro e conseguem dar uma filada pela porta que vez por outra fica entre-aberta. Ele passa horas mexendo no seu celular na falta do que fazer...

Vários pacientes chegam em estado deplorável, e ele não se abala.
Seu coração parece ter ficado do lado de fora, e é incapaz de um gesto delicado, para ajudar alguém a tirar seu familiar do carro. Mas a primeira coisa que avisa enquanto o novo paciente chega, é: "O senhor tem que tirar o carro daí".

Lá dentro, meu pai foi colocado numa maca.
Meu irmão quem o colocou.
Ninguém ajudou.

Ele ficou encostado pertinho de uma das enfemarias. Lugar VIP! São duas alí naquele espaço que havia por volta de 43 camas com pacientes em condições das mais variadas que um ser humano pode imaginar. O cheiro não é agradável naquele lugar.

Fui dar uma voltinha dentro da Emergência.
Alguns doentes muito mal.
Outros, aos berros.
Pacientes vomitando no chão e toalhas são colocadas para que a limpeza depois seja facilitada. Outros, choram com dor.
Não ha gente suficiente para o atendimento de todos.

O médico que atendeu meu pai, quando entramos para a consulta, se mostrava extremamente cansado. Muito cansado. No final do plantão, perto das sete da manhã perguntei a ele desde quando não dormia. A resposta foi:
"estou aqui 24 horas".
Ele é um estagiário. Será, um grande médico, caso seja dedicado sem dúvida, pois o tamanho da "bucha" que ele pega nessas 24 horas, é indescritível, mas imagino que muitas vidas ficam pelo caminho, por falta da devida atenção.

Enquanto isso, meu pai tentava dormir e com demência ou Alzheimer, não temos idéia de até onde ele foi capaz de avaliar o que estava acontecendo. Só sei que não conseguiu dormir, pois o barulho, era muito... Não provocado pelos doentes, que por sinal, são até mais silenciosos que os enfemeiros. Mas, as quatro da manhã, como estavamos muito próximos de uma das enfermarias, e de uma salinha minúscula com um computador, as enfemeiras não faziam a menor cerimônia em falar alto, soltar grandes gargalhadas, pisarem duro no chão, passarem um baton no espelho em cima da pia, que fica nesta enfermaria, e arrumarem vez por outra, seus lindos cabelos...

Havia ainda, um telefone na parede do lado da cabeceira de papai. Tocou algumas vezes. Era da outra enfermaria, - elas brincando com as enfermeiras de cá, só que a cada toque, meu pai acordava. O telefone era tirado do gancho com grande brutalidade e colocado da mesma maneira. A cada movimento externo, um susto do paciente. Parece de propósito.

A enfermeira que atendeu o meu pai, está lá ha 21 anos. Inicialmente, nos tratou com casca e tudo, pedi para trocar o meu pai. Ela veio com uma fralda e deixou em cima da barriga dele. Trouxe também a comadre para colher urina. Ou melhor, para eu colher urina para exame.
Ela não encostou nele, a não ser para pegar sua veia e colocar o remédio que o médico receitou.

A fralda que eu tirei, ela mandou que meu irmão chogasse no lixo dentro de uma sala de depósito de roupas suja e lixo, que ficava ao pé da maca do papai. A fralda que troquei, meu irmão precisou me ajudar, pois uma pessoa apenas não consegue fazer isso nas condições dele. Vez por outra me perguntava sentada e lendo uma revistinha de produtos da AVON, se ele ja havia feito xixi. Fiquei de olho e em pé ao lado dele o tempo todo.

Durante a madrugada conversei bastante com ela. Ficamos amigas, consegui com o meu coração, chegar um pouquinho no coração dela.

Vou contar o que mais vi por lá em apenas 14 horas que ficamos nesta amarga aventura.

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