Entrevista com Sérgio Viotti

O Jornal Modus Vitae, em Maio de 2007, conversa com Sérgio Viotti, quando ele interpretou um personagem da peça “O dia em que raptaram o Papa”. Viotti foi “Alberto IV”, um papa que imaginou ser por algumas horas, um transeunte comum pelas ruas de Nova York, mas o taxista que o levaria para a aventura - anônimo, judeu, o reconheceu prontamente e o seqüestrou.
O desenrolar da peça teatral de grande sucesso, é uma comédia, e Sérgio Viotti é mais que um ator, ele é mesmo o Papa. Procuramos essa “santidade” do teatro nacional, próximo aos seus 80 anos, e descobrimos que o “Papa” é mesmo pop.
Foi mais ou menos assim que abro a entrevista com Viotti, no entanto, é preciso dizer aqui, que eu me emocionei demais com a peça. Na verdade, muita gente se emocionou. Há momentos de total silêncio do público, e respeito, tamanha figura que ele travestido de PAPA representou.
Assisti a peça, no dia da estréia, algumas pessoas foram entrevistadas na saída ainda tomadas pela emoção. A TV Gazeta vem em minha direção, que não conseguia parar de chorar, para saber exatamente o que eu estava sentindo. Foi difícil de conter e explicar o que eu acabara de viver. Enquanto isso, outros repórteres pegavam outras pessoas para entrevistar, e também o Sérgio que mal conseguia sair do lugar, depois de um belo banho e pronto para comemorar a noite de sucesso, porque as mulheres, algumas, chegavam perto dele, e beijavam sua mão, como se ele fosse mesmo o PAPA!

Ele muito delicado ria um pouco constrangido... Deixava rolar, nem dava tempo de explicar, ou argumentar absolutamente nada! Até que uma senhora se ajoelha e pede para beijar suas mãos! Dorival que sempre cuidou dele com enorme carinho, se divertia e desta vez, pediu “por favor”, para que a senhorinha não se ajoelhasse!. Aí era demais!
E continuo eu...
O relógio disciplinador de encontros formais apontava acanhado que já se passava da meia noite. Constrangimento lógico dessa invenção denunciadora de horários, pois, o apartamento é de Sérgio Viotti e de Dorival Carper, e se existe lugar no mundo em que horário não é bem visto é neste cantinho mágico, onde poesia, música, champagne ( Tatinger é a preferência de Carper ), vinhos ( tintos de Nuits St Georges, a predileção de Viotti), aliado ao menu degustation do Chef Carper, sublimam a vida, e não apenas um espaço de tempo. É claro que a entrevista aconteceu já na madrugada, sob a vigia de quadros, esculturas livros, objetos, onde tudo faz sentido, nada é por acaso, cedendo a impressão de estarmos no meio de uma história, e a medida que nos envolvemos mais com aquela atmosfera quase lúdica, percebemos que estamos participando mesmo de uma grande história, de amor, entre Viotti, Carper, “Modus Vitae”e a vida.

Vou deixar aqui, todas as perguntas que fiz a ele, sem obedecer a ordem original da entrevista. Vocês poderão perceber um pouco desta cabeça recheada de cultura e de conhecimento.
A maior qualidade de Sergio Viotti?
“A minha fidelidade em todos os sentidos”
Fala a sua idade?
“Claro, 79. É um milagre! “
Um filme que mexe com Você.
“Sou saudosista e adoro “E o Vento Levou”. Tenho a fita e amo. Conheci Vivian Leight, linda, mas chatérrima!!!"
Um país. “A Inglaterra” ( Sérgio morou por lá muitos anos de sua vida, foram mais de 14).
O que te dá mais prazer de fazer?
“ Escrever. Foi o que sempre mais gostei de fazer. Lembro-me de uma vez, eu tinha 16 anos, e estava na casa de meu avô Manoel Viotti. Ele tinha uma máquina de escrever “Royal” e não deixava ninguém perturbá-lo enquanto datilografava, porém, minha companhia não lhe importunava. Eu ficava encantado no maior silêncio, e num belo dia ele me disse: “quer aprender a datilografar?”. Respondi mais que depressa que sim! Ele então me ensinou, e muito mineiramente me usava para bater os verbetes do seu dicionário. Vovô foi quem escreveu o primeiro dicionário de gíria brasileira. Eu achava aquilo uma Glória, pois estava colaborando com vovô, isso era mesmo o máximo! “
Você tem irmãos?
"Sou filho único e não sei se feliz ou infelizmente. Eu detestaria ter um irmão burro; iria ignorá-lo! Tenho horror à estupidez humana, `a burrice. Tenho alguns parentes que eu não posso nem ver, quanto mais ter um irmão, ou irmã desse tipo crescendo ao meu lado, que eu teria que agüentar a vida inteira. Deus me livre!"
Timedez é coisa comum entre os atores, você concorda?
“É verdade. Essas pessoas que se dedicam a essa coisa do representar, do ser artista, essas pessoas são mais tímidas, umas das raízes que faz com que você seja ator é de fato a de você poder se despir de você mesmo."
É preciso ter coragem para interpretar?
“Não, não! É uma coisa que você sabe fazer. Você vai, - e faz! Certa vez perguntaram ao Anthony Hoppinks, que eu acho um ator espantoso, como é que ele criava um papel. E com aquela cara bem descofiada ele disse: “Eu sou um ator! Dão um papel, eu leio, eu faço! “ É apenas isso. Essa gente fala as coisas de maneira simples, com enorme clareza, e que todos entendem."
Explique sua paixão por Shakespeare?
“Posso explicar com cinco palavras?"
"Porque ele é muito bom! Não tem outra explicação. Sempre digo que tudo que não está na Bíblia está em Shakespeare, e tudo que está em Shakespeare está na Bíblia.”
A cidade que mais gosta?
"Londres."
Entre Rio e Sampa?
"São Paulo!"
Uma mulher?
"Dulcina. Ela é a síntese. É mulher, professora, foi freira no palco, prostituta.”
Um homem..
“Jesus Cristo”
Um sonho
"Não tenho, nunca tenho, é uma coisa abstrata demais."
O que menos gosta em você?
“A minha preguiça “
Um prato predileto
“Uma macarronada a bolonhesa – comeria todos os dias”
Música
“The way you look tonight”
Dos livro todos que você tem, qual especial?
"Todos! Não dou e nem empresto nenhum deles."
Você nos disse que não fez nenhum curso de interpretação. Como pode? E como você vê isso nos dias de hoje?
“Para ser um artista antes de tudo tem que ter uma coisa que se chama talento! Se você não tem, não insista. E talento é uma coisa que Deus dá. É inexplicável."
Entre Rádio e TV, qual você escolhe?
“Talvez eu goste um pouco mais de rádio. Sabe por quê? Em televisão quando sai alguma coisa errada a culpe é sempre sua. No rádio funciona diferente. Agora veja bem, meu envolvimento com o rádio foi inesperado, não foi planejado. Não fui fazer rádio na Europa. Eu fui à Europa! E a maneira de ir ao Velho Mundo era fazer rádio lá. Outro fator determinante se deu em razão do meu ingresso na BBC que não era uma rádio comercial e sim cultural, isso me ajudou bastante. A BBC ensinou-me mais que fazer rádio, me descortinou para a vida artística."
Sérgio,você foi filho único e optou por não ter filhos, por qual razão?
“Penso que se tivesse um filho nunca mais dormiria. Sou uma pessoa obcecada com várias coisas, uma delas é exatidão, outra é perfeição, outra é integridade, enfim, se meu filho ou minha filha não correspondesse exatamente a tudo aquilo que eu exigisse, ou eu me suicidaria, ou nuca mais dormiria. Esse é o tipo de temperamento de um Viotti. Isto é um segredo dos Viotti. Tenho uma prima que falo com ela todos os dias da nossa vida e nos divertimos muito. Pensamos exatamente igual. Às vezes ela diz assim: “Hoje estou tendo uma das minhas Viotadas”. E eu sei exatamente o que ela está dizendo."
O que é Dorival Carper para você?
( neste instante, ele respira fundo, pensa, e com sua voz macia e calma faz chorar o meu marido, e nossos amigos em comum, Antonio Carlos Nascimento e Carolina Nascimento)
“Dorival é meu amigo, meu irmão, meu pai, meu conselheiro, meu colega, meu produtor. E isso há 44 anos ( Pausa). Eu não seria exatamente a pessoa que sou hoje, se não fosse ele. Sempre me ajudou, enormemente em todos os momentos da minha vida. ( Sérgio aponta Dorival que também acompanha a entrevista) sempre me deu um grande apoio. Quando tive problemas grandes como a doença de meu pai, doença de minha mãe. Nós somos mais que amigos e irmãos. No fundo no fundo, somos uma pessoa só! Nos ajudamos e nos respeitamos um ao outro de uma tal maneira, que eu acho um privilégio ter encontrada na vida uma pessoa como Dorival."
Sua veia artística vem da sua mãe?
“Não. Não. O amor pela arte, pela música, a paixão pelos livros e a pintura, herdei dos Viotti ( família do pai). Minha falação sim é dos Silveira...falam demais. Você tem que implorar de joelhos para um Silveira ficar quieto. Todos os Viottis que eu conheci e conheço tem um lado artístico marcante; não necessariamente sendo um profissional."
A sua crítica sobre a peça “O Balcão “ é maravilhosa e é considerada uma obra de arte. Dizem que ela supera a peça! Como é isso?
“Isso foi em 1971. Fui convidado para fazer a peça, mas como tenho medo de altura acabei recusando. Esta obra do escritor e dramaturgo Frances Jean Genet ( 1910 – 1986) contava com cenografia consubstanciada de um espiral de ferro vertical, uma espécie de elevador representando um palco de acrílico , que subia e descia. Foi um dos espetáculos mais extraordinários que eu vi em toda a minha vida. Não fiz a peça, mas fiz a crítica."
E assim, foi concedida a entrevista para mim, ao lado de meu marido e um casal de amigos, com a maior tranquilidade. Vez por outra davamos uma gargalhada, tomavamos mais um vinho, e saímos de lá, muito tarde. Os dois nos receberam com a maior classe! Assim, normalmente, como eles sempre são. Um encanto! Um presente.
Uau!!!! Que maravilha de homen e que maravilha de entrevista.
ResponderExcluirEstá muito completa, para poder conecer o homen que há debaixo do artista, sus preferencias, sua vida, seus pensamentos, suas opoiniöes...
E como ator, eu näo conheço, mas estou segura que, olhando tudo o que você escreveu, deve ser igual de importante que como homen.
Mas eu qcho que o melhor da entrevista, do reportagem, foi a humildade de este artista.
Parabéns, amiga.
Um beijinho grande
Impressionante como me identifiquei com vários aspectos da personalidade do Viotti. O teatro curou minha timidez, que era absurda. repito o comentário do post anterior: privilegiada você por esse convívio.
ResponderExcluirAdorei!
ResponderExcluirQue bom conhecer um pouco mais de um artista tão talentoso como Sérgio Viotti e seu fiel "escudeiro" Dorival, sob seu olhar. Parabéns!Beijos mana
Charme, não encontrei o seu comentário que aprovado está, claro, mas não sei em que assunto... Menina não o vejo, mas pode me escrever para conduarte@gmail.com
ResponderExcluirUm grande beijo, CON
Muito boa a entrevista Conceição!!!
ResponderExcluirBeijos!!!
MUITO BOA!
ResponderExcluirVou colocar o link no e-mail dos ex-alunos de Teatro da UNIRIO!
BJS!
Menina, fiquei encantada! Fizeste ótimas perguntas e ele é sensacional! Parabéns!
ResponderExcluirVai nlá em casa que tem um desafio pra ti.
Bjim.
Conceição
ResponderExcluirDepois desta brilhante descrição até parece que já conhêço esta Actor de que nunca tinha ouvido falar.
GENTE GRANDE é assim mesmo, como que pedindo dsculpa por existir...!
Obrigado pela postagem, e também pelas sempre amáveis visitas.
Beijinhos
G.j.
Oi, Con,
ResponderExcluirpassei só para deixar um beij....rsrsrs brincadeira, linda. É que ando naquela fase sem tempo, e lí tua bronca lá na Nanda sobre quem passa só para deixar um beijo...rsrsr prometo, nas fases sem tempo , não deixar nenhum mimo , tá bom?
beijo, querida.
Conceição...
ResponderExcluirBoa noite!!!
Seguir um blog como o seu deve ser apaixonante...
Sou nova neste mundo...
Mas estou encantando-me...
Seu blog inteligente desperta interesse extraordinário por aprendizagem...
Intelectual, informativo mas despojado...
Esta de parabéns...
Vou adorar estar sempre aqui...
BJKS...
Chrys
;)
Con, näo sei se você conhece, esta semana en Sevilla (España) têmos uma das festas mais bonitas e coloridas do ano.
ResponderExcluirA feria de Abril de Sevilla.
Se quizer vir no meu blog, podemos tomar uma taça devinho branco manzanilla, bem frio e até dançar umas sevilhanas.
Te espero, tá?
Um beijinho
Olá amiguinha, vim até aqui pelo Blog da Céu que conheço desde que eramos jovens.
ResponderExcluirAdorei o teu Blog, esta mensagem do que relataste do teatro, que assististe, da excelente interpretação do actor que fez acreditar que era mesmo o Papa e a tua extraordinária entrevista, fez-me passar aqui um belo momento. Simplesmente fantástico!!! Parabéns!
Se aceitares, gostava que assinasses o meu Guestbook, assim ficas a conhecer-me também:-)
Um grande beijinho levado nas ondas do Atlântico que nos separa,
Ana Paula
cONCEICAO
ResponderExcluirpenso como o Marcos. Que homem interessante, viu?Fiquei apaixonada por ele.Que mulher nao se apaixonaria por um ser desses?=tudo de bom
Olha, muito obrigada por toda forca que vc está dando. Obrigada mesmo.bjs e dias felizes
www.graceolsson.com/blog
muito boa entrevista. parabéns!
ResponderExcluirPuxa, como é bom conhecer Sérgio Viotti atrvés de você e tua ótima narrativa! Beijo
ResponderExcluirAs casas sonham.
A cidade dorme.
Eu e meu cão
vagamos pela noite.
Ele bebe as estrelas
refletidas
na água que a chuva
deixou pelas calçadas.
A lua e o silêncio
me alimentam.
É minha a noite.
A minha alma canta.
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Sônia Brandão
olha...vc deve ser mesmo muito especial por ter convivido com esse paradigma-sergio, que acaba de nos deixar orfãos de sua cultura de sua imensurável sofisticação...a primeira vez que ouvi a VOZ dele, foi na radio cultura...eu era um moleque...foi um baque! naquele momento eu soube que estava passando por uma experiência única...a voz dele era o reflexo de como o mundo deveria ser...com ele aprendi a apreciar mozart, pehrlman, brahms...callas...que falta..que saudades!...um abraço enorme em dorival...paz!
ResponderExcluirMagnífica entrevista! Sérgio era um ator de talento inconfundível,além de um singular cultor das artes e da vida.
ResponderExcluirSERGIO VIOTTI, UM HOMEM INTERESSANTE, SOU BEM JOVEM, MAS ASSISTI ALGUMAS NOVELAS EM QUE ELE PARTICIPAVA.
ResponderExcluirELE É UM HOMEM DE SORTE, POR TER ENCONTRADO UM NAMORADO E AMIGO Á ALTURA.
PENA QUE ELE SE FOI, VAI DEIXAR SAUDADES
Sérgio Viotti sempre foi o meu melhor e mais querido amigo. Doce, terno, cúmplice, sábio, companheiro... o que mais eu posso dizer dele? Ah, que tornou a minha vida mais glamurosa, sim, claro! Como sabia ser encantador!!!!!!!!!! Sofri muito quando ele se foi, até pq um pouco antes perdi meu marido também. Eu e Dorival trocamos algumas/ muitas lágrimas pelo telefone. Acabei de ler a sua entrevista com ele e... o que é aquela resposta sobre o Dorival? Quanta emoção, verdade, quanta sensibilidade! Dorival merece e sabe disse. Sabe também o quanto eu amava perdidamente os dois. É isso, só quis mesmo fazer um registro. E de repente fiquei morrendo de saudades dele, deles, enfim, de tudo que vivemos juntos. Obrigada pela atenção. Um beijo
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